segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Conquista desbloqueada e a polêmica entre jogadores casuais e hardcore

Os textos abaixo foram publicados durante o mês passado no site MSN Jogos à convite da grande jornalista e amiga Paula Romano, da editora Tambor. No primeiro escrevi sobre Achievements e Trophies e como ambos modificaram o mercado mundial de games. Esse texto acabou desencadeando uma discussão sobre a classificação de jogadores, tema do segundo artigo que pode ser conferido em sequência.


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Conquista desbloqueada!

Entenda o sucesso dos troféus e conquistas na atual geração de consoles, e como isso se tornou verdadeiras redes sociais entre os jogadores

Se você não sabe o que são Troféus e Conquistas considere-se um jogador casual

Já passou o tempo em que terminar um jogo era sinônimo de chefões derrotados e longos créditos na tela. A moda agora é zerar 100%, platinar, conquistar 1000G e por aí vai...

Se você não faz nada disso, considere-se um gamer casual ou então uma pessoa muito ocupada. A razão para tal mudança no mundo dos games surgiu de uma ideia simples de tentar dificultar a vida dos jogadores mais viciados: implementando um conjunto de objetivos secundários que prolongam a experiência dos jogos. Estou me referindo aos famosos troféus (PlayStation 3) e conquistas (Xbox 360).

Cada game lançado para os consoles da Sony e Microsoft vem com um pacote de Trophies e Achievements, respectivamente. Essas premiações só são desbloqueadas quando o jogador conclui determinado objetivo durante um game, como derrotar um inimigo durante um certo limite de tempo, ou então obter todos os itens colecionáveis em um jogo de RPG. A quantidade desses prêmios é quase infinita e só cresce a cada novo lançamento.

No Playstation 3 os troféus são divididos por dificuldade – bronze, prata, ouro e platina – e, juntos, geram uma pontuação final para o jogador que os conquistou. Um troféu de ouro, por exemplo, vale muito mais do que três de bronze e consequentemente é muito mais difícil de ser conquistado, além de estar em menor quantidade dentro do pacote de Trophies. Em “God of War 3”, exclusivo para o console da Sony, há um total de 36 troféus: 20 de bronze, 10 de prata, 5 de ouro e um de platina que só é liberado após todos os outros serem desbloqueados.

E você? Quantos jogos já conseguiu Platinar?

No Xbox 360 cada conquista vale um determinado número de pontos, ou Gamerscore (G), que varia de acordo com a dificuldade do desafio. Um jogo comum para o console da Microsoft possui um mínimo de 1000G de conquistas, dividido entre vários Achievements. Em “Fable II”, por exemplo, há 66 conquistas que somadas valem 1350G.

Mas a verdadeira graça de tudo isso é o compartilhamento de Trophies e Achievements entre os jogadores. A Playstation Network (PSN) e a Xbox Live praticamente se transformaram em duas redes sociais de gamers que competem pela maior pontuação e maior quantidade de games concluídos 100%. Para que todos entendam o que isso significa, vamos usar o exemplo de Farmville, o famoso jogo entre os usuários do Facebook.

Nele, cada pessoa é responsável por sua própria fazenda e deve gerenciá-la ao ponto de possuir uma enorme área de plantações e várias construções caras, dignas de um jogador aplicado. Além da interação entre os usuários, como a troca de itens ou presentes, a diversão é comparar uma fazenda com outra, para ver quem fez o melhor trabalho até então. Esse esquema viciante de compartilhar o tempo investido em algum game com outros jogadores é o que faz Trophies, Achievements e Farmville tão famosos.

A grande maioria de gamers que consegue realizar a façanha de platinar um jogo, quer que seus amigos e seguidores comentem sobre tal feito. Podemos comparar isso com várias situações do cotidiano, nas quais as pessoas compartilham com outras suas realizações pessoais e profissionais.

Aproveite do mundo interativo

É aí que entram as grandes redes sociais como Twitter e Facebook. Oras, a graça não é contar para os outros o que estamos fazendo, gostando ou até mesmo odiando? Então por quê não juntar tudo isso com os games? A resposta para isso não demorou muito, já que a Sony e a Microsoft firmaram acordos com os gigantes Twitter e Facebook para que seus usuários pudessem compartilhar seus feitos nos games também com seus seguidores e amigos. Outros sites surgiram logo em seguida para aproveitar dessa febre viciante, como Raptr, Playfire, PS3Heroes, PS3Trophies e Xbox360Achievements.

Então vamos recapitular. As conquistas surgiram primeiramente para dificultar a vida dos jogadores e trazer novos objetivos para os games. O advento de pontuações e compartilhamento entre usuários fez com que gamers jogassem ainda mais para superar seus adversários, criando pequenas redes sociais que logo se integraram com outras.

Atualmente, boa parte dos jogadores considerados hardcore passam horas para concluir seus games 100% apenas para aumentar suas pontuações e colocações nos diversos rankings da PSN e Live. Ou seja, já passou o tempo em que só havia o objetivo de terminar a história de um jogo. Os troféus e conquistas deram um novo significado para a atual geração de games: interação entre usuários.




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A polêmica entre o jogador casual e o hardcore

Não só os games mudaram, jogadores também recebem classificações de acordo com o tempo que passam na frente à tela. E você em qual se encaixa?

Meu texto anterior sobre troféus e conquistas publicado aqui no MSN Jogos levantou uma questão sobre a classificação dos jogadores entre casual e hardcore, após chamar as pessoas que não se preocupam com Achievements de casuais. Li e ouvi algumas críticas de jogadores que não concordam com a classificação acima ou que se consideram hardcore mesmo sem os troféus. Em primeiro lugar devemos compreender a existência da distinção entre os usuários da geração atual de consoles para que só assim possamos dar importância ao assunto.

Quando a Nintendo apresentou o Wii pela primeira vez em 2006, críticos de games e os próprios jogadores estranharam a novidade, pois não conseguiam prever como gráficos atrasados e sistema inédito de controles poderiam superar a alta tecnologia fornecida pelo Xbox 360 da Microsoft. Porém, quando as vendas do console da Nintendo ultrapassaram de maneira impressionante as da concorrência, começaram a surgir explicações para tal fato. Descobriu-se então que um novo tipo de consumidor havia surgido e para ele deu-se o nome de casual.

O jogador casual

Como o próprio nome representa, esse grupo de jogadores usufrui dos games da mesma maneira que o faz com outros veículos de entretenimento, como os filmes: não se preocupa com a tecnologia envolvida ou com as várias possibilidades de interação, mas apenas com a diversão. Já que houve a necessidade de classificar essa nova geração de jogadores para explicar as mudanças no mercado de games, os antigos e veteranos usuários receberam o nome Hardcore.

O grande problema, no entanto, é que os jogadores casuais já existiam muito antes de receberem tal denominação e portanto não podem ser considerados iguais aos novos casuais do Wii. É errado dizer que aquele antigo jogador de “Pokémon” que se divertia com as batalhas e trocas de monstrinhos entre os amigos possui as mesmas características do avô ou avó que brincam de boliche em frente à televisão. Entre os Hardcore o mesmo também se aplica. Um jogador que é bom em qualquer game não pode ser comparado àquele que só gosta de jogos de luta ou corrida, por exemplo.

Rotular é legal?

O fato é que dividir todos os gamers em apenas dois grupos não é correto. As pessoas são muito mais complexas se estudadas com maior profundidade. Mas também é errado dizer que a classificação não pode existir, já que ela auxilia no melhor entendimento sobre o mercado de games. É fundamental para uma empresa como a Eletronic Arts saber exatamente com qual público está lidando durante a produção de um jogo. A Nintendo sabia que iria vender muitos consoles Wii justamente porque havia estudado os diferentes tipos de jogadores previamente.

Se eu pudesse classificar os usuários de games, criaria quatro grupos distintos: Casual, Casual Tecnológico, Harcore Específico e Hardcore.

O primeiro reúne todo o público atraído recentemente pelo Wii, Playstation Move e Kinect. São jogadores que nunca tiveram contato - ou muito pouco - com os games até então e os enxergam apenas como diversão.

Hardcore pode ser Casual e vice-versa?

O Casual Tecnológico é aquele que acompanhou, mesmo que parcialmente, a evolução dos jogos. Ele já experimentou “Mario”, “Sonic” ou “Street Fighter” no passado e portanto criou um vínculo com alguma produtora ou franquia. Sabe distinguir, por exemplo, a alta tecnologia de um PlayStation 3 de um console menos avançado como o Wii, mas isso não afeta necessariamente a sua escolha de compra, já que o dinheiro é mais importante. Muitos dos fãs de animes e mangás são casuais tecnológicos justamente por se apegarem a personagens de franquias famosas.

O Hardcore Específico, como o nome sugere, é fã de determinados gêneros de games, como luta ou RPG, por exemplo. Ele costuma jogar bastante uma quantidade menor de jogos, mas é especialista nela. Note que ele se assemelha com o Casual Tecnológico e pode até fazer parte dos dois grupos, mas possui muitas horas jogadas e na maioria das vezes opta pelo console de sua preferência antes de conferir seu preço.

Pure hardcore

Por último há o puro Hardcore, aquele que joga de tudo e dedica boa parte de seu tempo para concluir totalmente os games. É aqui que os troféus e conquistas aparecem como provas do ótimo desempenho do jogador.

Perceba como essa nova divisão de quatro públicos diferentes faz maior sentido do que a simples classificação de casual e hardcore. Mesmo que essa seja a minha opinião em particular, os casuais, tecnológicos, específicos e hardcore são excenciais para as produtoras atuais e precisam existir para o melhor entendimento desse mercado tão complexo. E você? A qual grupo se assemelha mais?

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